terça-feira, 15 de maio de 2007

Mistérios da Vida

Autoria: Márcio Roberto de Almeida.
Há períodos nos quais costumo passar boa parte das noites escrevendo ou lendo. Atualmente, com quase todo o conhecimento da humanidade e o mundo disponíveis pela Internet, às vezes é mais atrativo pesquisar e estudar do que dormir. Entretanto, por muito tempo eu pensava ter alguma insônia patológica.

Mas durante as minhas insistentes vasculhações descobri muita gente que leva a vida dessa forma, dormindo três ou quatro horas a cada noite e absolutamente, saudáveis, atuantes e produtivos. Não que eu ache ser esse o padrão mais adequado, porém o meu metabolismo já me provou ser esta a performance natural exigida pelo meu organismo e, portanto, sinto-me muito bem. Levanto às vezes por volta das três da manhã, leio, escrevo, pesquiso curiosidades científicas, culturais e populares e, ainda, avalio vários casos e tomo decisões relacionadas ao meu trabalho, com uma lucidez e com uma segurança que eu jamais teria durante o corre-corre diário. Depois desse turno, ainda costumo fazer os meus dez quilômetros de corrida, antes de uma boa ducha, um café da manhã completo e, então, um belo dia de trabalho...

Dentre os vários companheiros dessa insônia saudável, vale ressaltar algumas celebridades como Isaac Newton, Jonh Kennedy, até Hitler, além dos três centenários mais ativos e atuantes da nossa história recente, Barbosa Lima Sobrinho, Oscar Niemeyer e Vitor Civita.

Numa dessas minhas noites, depois de algumas reflexões e de algumas anotações de memórias e episódios marcantes na vida de minha família, acabei voltando à cama para um cochilo complementar e tive um sonho muito interessante. Nesse sonho eu chegava, em companhia de mau pai, de meu irmão, Néder e do célebre compositor dos anos 60 e 70, Geraldo Vandré, em uma fazenda muito linda de onde se avistava belas paisagens e uma casa muito grande e bonita. Na entrada, caminhávamos através de um conjunto de currais e galpões de gado com várias divisões, tudo muito limpo e bem construído. Qual foi minha grande surpresa quando meu pai nos mostrou, num determinado compartimento de currais, um grande lote de vacas que, ao invés de leite, davam uma bebida semlhante ao vinho tinto, cujo sabor, cheiro e a cor eram algo fantástico!...

Foi pra mim uma visão espetacular e me senti em estado de euforia ao ver tamanha maravilha. No início fiquei meio desconfiado!... Mas em seguida, vendo vários baldes cheios de leite espumante, com aquela cor maravilhosa e, além disso, aquelas vacas cujo aspecto estético e as cores eram de impressionante beleza, fiquei fascinado... Caminhamos no meio desse gado enquanto meu pai nos mostrava e exaltava aquela cena com total satisfação e eu me encantava com cada detalhe, até que os fatos não se registraram mais em minha memória. Acordei em seguida, meio embevecido e ainda sentindo aquelas sensações de alegria e fascinação...

Nesse dia de manhã, durante o trajeto para o meu trabalho, eu ouvia o som do carro tocando aleatoriamente, sem qualquer seleção ou critério pré-estabelecido, o meu acervo de quase cinco mil músicas, quando entrou a música “Disparada”, de Geraldo Vandré! Fiquei atônito e, aom mesmo tempo, emocionado, pois as cenas do sonho me vieram à mente com uma nitidez impressionante... E mais, comecei a ouvir aquela música, a qual eu já ouvira e até cantara no passado, por tantas vezes mas, como era meu costume, eu nunca tinha notado o que diz a letra e, portanto, nem sequer imaginava o sentido de um único verso. Então, muito maior foi minha surpresa naquele momento, ao ouvir atentamente o que dizia a música e perceber como aquele poema tinha tanto coisa a ver com minha história de vida. Chorei de emoção!... Repeti a música, não sei quantas vezes, e chorei, também não sei quantas vezes...

Não sei se uma feliz coincidência me contemplou com dois eventos estranhamente interligados, quais sejam o sonho tão fascinante com a presença de meu falecido pai e com o enigmático compositor Vandré - que eu nem sei se ainda está vivo, pois desapareceu da mídia há anos - e logo em seguida, ouvir a mais uma vez essa bela música que eu tantas vezes cantei sem saber o que dizia e, agora, descobrir que sua letra é tão significativa para mim...

São mistérios da vida que nem vale a pena tentar explicar! Vale, sim desfrutar como se fora uma manifestação simples do ser supremo criador ou, pelo menos, de algum anjo bom que gosta de nos surpreender e emocionar... Por causa disso, eu pretendo colocar no prefácio do livro que devo lançar em breve, a letra da música “Disparada”, que transcrevo abaixo. Tente ler, apenas, sem se ater à melodia que, muitas vezes, está impregnada na memória da gente que viveu aquela época...

“Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar!
Eu venho lá do sertão, e posso não lhe agradar...
Aprendi a dizer não e ver a morte sem chorar. A morte, o destino, tudo...
Tudo estava fora do lugar e eu vivo pra consertar.
Na boiada já fui boi, mas um dia me montei. Não por um motivo meu ou de quem comigo houvesse, que qualquer querer tivesse. Porém, por necessidade do dono de uma boiada, cujo vaqueiro morreu.
Boiadeiro muito tempo! Laço firme e braço forte. Muito gado, muita gente, pela vida segurei.
Seguia como num sonho em que boiadeiro era um rei.
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo e, nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando, as visões se clareando... até que um dia, acordei!
Então não pude seguir, valente Lugar-Tenente, dono de gado e gente...
Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata. Mas com gente é diferente.
Se você não concordar, não posso me desculpar. Não canto pra enganar.
Vou pegar minha viola, vou deixar você de lado e vou cantar noutro lugar.
Na boiada já fui boi! Boiadeiro já fui rei. Não por mim nem por ninguém que junto comigo houvesse, que quisesse ou que pudesse por qualquer coisa de seu, querer ir mais longe do que eu...
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo e, já que um dia montei, agora sou cavaleiro! Laço firme e braço forte num reino que não tem rei...”

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