domingo, 2 de abril de 2017

O viés tendencioso das pesquisas

Quem tem conhecimento básico de metodologia científica sabe que uma pesquisa envolve diversas variáveis, inclusive algumas ocultas ou externas (exógenas), que podem gerar falsos resultados quantificáveis, mas completamente absurdos e que não indicam qualquer relação de causa e efeito entre os parâmetros pesquisados. Contudo, muitas vezes a divulgação tendenciosa acaba criando mitos que sobrevivem como se fossem resultados reais mas que, na verdade, não fazem o menor sentido.
Vou sumarizar, a seguir, três casos usados pelo médico e nutrólogo Dr. José Carlos Souto, para elucidar como isso acontece.

CASO 1
Hipótese A: Tomar sorvete causa afogamento
Hipótese B: Proibir a venda de sorvetes evita mortes no mar e nas piscinas.
População testada: Crianças e adolescentes de Ilhéus – BA.
Observação: Entre as vítimas de afogamento, a maioria tinha tomado sorvete.
Variáveis consideradas: Sorvete e afogamentos.
Variável exógena: O calor.
Análise: Em dias de calor as pessoas costumam ir mais aos clubes e praias e, também, tomar mais sorvete.

Conclusão: A coincidência de maior fluxo de pessoas nas praias e clubes com o maior consumo de sorvete nos dias quentes, por óbvio, não constitui nenhuma relação de causa e efeito entre sorvete e afogamento.
Portanto, as hipóteses A e B são falsas.

CASO 2
Hipótese A: O consumo de carne vermelha, gordura e proteína provoca a morte.
Hipótese B: Evitar carnes vermelhas, gorduras e proteínas aumenta a longevidade.
População testada: 8.000 pacientes vítimas de infarto nos Estados Unidos.
Observação: Acompanhamento entre 1966 e 1974, metade sendo tratada com drogas destinadas a baixar o colesterol e a outra metade com placebo.
Variáveis consideradas: Medicação-teste, níveis de colesterol e índice de mortalidade.
Variável exógena: A disciplina dos pacientes analisados.
Primeira análise: Descobriu-se que as pessoas que usaram corretamente a medicação-teste teve mortalidade de 15% e quem usou a medicação de forma negligente teve mortalidade de 24,6 %. Quase 10% a mais de mortes. Em ambos os grupos registrou-se redução insignificante do nível de colesterol.
Segunda análise: Ao analisarem a mortalidade entre os pacientes do grupo placebo (que tomavam cápsulas sem nenhum efeito), constatou-se que os pacientes que tomaram o placebo corretamente, seguindo os horários e dosagens indicadas, tiveram a mesma mortalidade de 15℅, enquanto os que tomaram o placebo de maneira errática, apresentaram mortalidade e 28,2%. Ou seja, ainda que todos tomassem pílulas sem nenhum efeito, os indisciplinados tiveram mortalidade 13,1% maior.

Conclusão: As pessoas que tomam seus remédios religiosamente como prescrito são mais disciplinadas do que aquelas que os tomam de forma errática. São mais bem comportadas, razão pela qual têm menor chance de fumar ou beber em demasia, cuidam-se melhor no que diz respeito a peso, atividade física e alimentação, usam cinto de segurança, capacete, etc.
Portanto, a hipótese A e hipótese B são falsas.

CASO 3
(O Globo – 2012)
"A pesquisa de Harvard, que acompanhou 120 mil americanos por mais de 20 anos, revelou que o consumo de uma porção diária de carne processada eleva em mais de 20% o risco de morte, enquanto a carne não vermelha, como um bife, aumenta as chances em 13%.
A PESQUISA:
Hipótese A: Consumo de carne vermelha causam morte.
Hipótese B: Reduzir o consumo de carne vermelha aumenta a longevidade.
População: 120.000 cidadãos americanos
Observação: Acompanhamento ano a ano, ao longo de 20 anos.
Variáveis consideradas: Consumo de carnes vermelhas e longevidade.
Variável exógena: O estilo de vida dos apreciadores de carne vermelha.
Análise 1: Dentre as pessoas que comiam muita carne vermelha, houve 1,40% de mortalidade. Entre as pessoas vegetarianas ou quase vegetarianas, houve 1,13% de mortalidade. Uma diferença absoluta de 0,27%.
Análise 2: Pessoas com maior consumo de carne vermelha, adeptos do churrasco, são mais propensos a ser fumantes e a beber álcool e mais sedentários, por isso mais obesos. Além disso, uma maior ingestão de carne vermelha consiste em menor ingestão de frutas, legumes e fibras.

E como eles chegaram em 20%?
A comparação entre o índice de 1,40% e 1,13% indica uma diferença percentual, entre esses dois fatores, de cerca de 23%. Entretanto, essa grandeza não faz sentido na análise em questão.

Conclusão: Considerando que as pessoas que consomem mais carne vermelha são adeptas do cigarro e do álcool, além de outros fatores, a ínfima diferença de 0,27% de mortalidade sobre essa população não indica relação de causa e efeito entre consumo de carne e mortalidade.
Portanto, as hipóteses A e B acima não são verdadeiras e a matéria de O Globo é tendencioso e inverídica.



* Marcio Almeida é Engenheiro Mecânico e Engenheiro Industrial, Administrador de Empresas, MBA em Gestão Governamental e Ciência Política, Especialista em Direito Administrativo Disciplinar, pesquisador autodidata em Nutrologia e Nutrição Esportiva, Meio-Maratonista, ex Diretor de Auditoria Legislativa e ex Presidente de Processos Disciplinares na Administração Federal Brasileira, M∴M.

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